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Quando se fala das torres de Alcântara, em Lisboa,
por exemplo, poucos nos lembramos que ali havia, ainda no princípio
do século XIX, um braço do Tejo, uma ribeira, um moínho de maré com
a respectiva caldeira, e uma ponte de pedra com uma estátua de S.
João Nepomuceno. Parte disso ainda lá estará, sob toneladas de
entulho. Uma possível alternativa às torres poderia ser a
recuperação desses elementos e a adaptação a terciário e a habitação
dos velhos edifícios industriais que existem à volta. Mas, embora
enriquecesse a cidade, isso não satisfaria, obviamente, a
sofreguidão dos promotores.
Felizmente, noutros locais, algumas autarquias têm
tido mais sucesso em encontar o equilíbrio entre a salvaguarda do
património concelhio e as pressões do negócio imobiliário. As
câmaras do Seixal e do Montijo são disso um bom exemplo. Graças à
sua sensibilidade e inteligência, estão hoje preservados bens
culturais como o moinho de maré de Corroios, mandado construír
inicialmente por D. Nuno Álvares Pereira, em 1404, e outras obras
idênticas se lhe seguirão.
Como temos vindo a dizer ao longo dos cinco anos que
a Pedra & Cal leva de publicação, património não são só igrejas e
castelos. Haja, a todos os níveis do Estado, mas sobretudo nas
autarquias locais, quem tenha a lucidez de o proteger. E não será só
por razões sentimentais: é que, para quem pensa em visitar-nos, um
antigo moinho de maré vale mais do que as (hipotéticas) torres de
Alcântara.
Lisboa, Fevereiro de 2004
V. Cóias e
Silva, Presidente do GECoRPA |