Revista Pedra&Cal

Reabilitação e vulnerabilidade sísmica

Indíce

06 A segurança sísmica na reabilitação de edifícios
Enquadramento e dimensão política
 Carlos Sousa Oliveira, Aníbal Costa, Ema Coelho, Paula Teves Costa, Rogério Bairrão, Mário Lopes, Rui Carrilho Gomes

10 Sismos e monumentos
Como reduzir o risco sem adulterar?
 Paulo B. Lourenço

14 Entrevista: “Os conceitos de exploração comercial e de excelência são incompatíveis”
Rui Pinho tem desenvolvido uma carreira europeia no domínio da Engenharia de Estruturas. Licenciado na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, depois de se doutorar no Imperial College...
 Vítor Cóias

18 Património cultural e risco sísmico: dois projetos europeus em curso
Niker e Perpetuate
 Daniel V. Oliveira

20 Qualificação dos engenheiros para a reabilitação sísmica do edificado
A reabilitação sísmica envolve, no entanto, um conjunto de atos de engenharia de estruturas novos e de elevada responsabilidade, que pressupõem o domínio, pelos técnicos envolvidos, de metodologias e tecnologias mais complexas que as da construção co
 Vítor Cóias

23 Sistema de cobertura do risco de fenómenos sísmicos em Portugal
A importância da sua implementação
 Fernando Nogueira

24 Regiões de maior risco sísmico de Portugal Continental
Perigosidade, vulnerabilidade e análise de risco
 Maria Luísa Sousa

28 Reforço estrutural na reabilitação do edificado
Uma deficiente percepção do risco
 José Noronha da Câmara, Carlos Trancoso Vaz

30 15.ª Conferência Mundial de Engenharia Sísmica
O conhecimento existe. Contudo, tem sido extremamente difícil colocar esse conhecimento ao serviço da comunidade responsável pela realização das novas obras e melhoria das existentes.
 Carlos Sousa Oliveira

32 Levantamento estrutural e de anomalias
Uma ferramenta para avaliar a segurança das construções
 Carlos Mesquita

34 “Há fogo subterrâneo a engolir Lisboa”
O Terramoto de 1755
 Cristina Campos

38 Património ferroviário em risco
O caso do complexo do Barreiro
 Jorge Custódio

42 A nova orgânica da Cultura na área do Património Cultural
O XIX Governo constitucional procedeu a uma profunda mudança na estruturação dos organismos da área da Cultura.
 Maria João Torres Silva

44 Abóbada da antiga Igreja de Santa Marta
Estabilização e reforço estrutural
 Luís Pedro Mateus

Preço: 5,00 €

N.º 53
Reabilitação e vulnerabilidade sísmica

Reabilitação e vulnerabilidade sísmica


EDITORIAL por Vítor Cóias

Algures no futuro, outro grande sismo nos espera
 
No âmbito da colaboração entre o GECoRPA – Grémio do Património e a Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), e no contexto da realização, em Lisboa, do Congresso Mundial de Engenharia Sísmica, WCEE 2012, o presente número da Pedra & Cal é dedicado à segurança sísmica do edificado e do Património.

Alertas para esta questão não têm faltado, como o do Arq.º Cassiano Branco, publicado há oitenta anos no Diário de Notícias, acompanhado duma curiosa proposta de solução (ver página 22).

O Grémio do Património vem focando este assunto desde a sua fundação. Logo no “número zero” da P&C, publicado em fins de 1998, se chamava a atenção para o risco associado ao edificado das zonas mais antigas de Lisboa e se apontava a necessidade duma postura preventiva. O tema foi retomado pela P&C, poucos meses depois, com um oportuno texto de Carlos Sousa Oliveira, onde se punha em evidência o facto de, graças à atividade que vinha sendo desenvolvida pela comunidade técnico-científica portuguesa, se dispor do conhecimento necessário para abordar a questão da vulnerabilidade do edificado face ao risco sísmico. Segundo ele, faltava, no entanto, à liderança das instituições do País, a coragem política para iniciar o processo, legislando de modo a aproveitar nesse sentido as intervenções de reabilitação urbana, tema de capa dessa edição da P&C.

Há doze anos, o número oito da P&C, com o tema “Quando a terra voltar a tremer”, era inteiramente dedicado à questão do risco sísmico a que se encontra sujeito o edificado e, em particular, o Património imóvel – os monumentos e edifícios históricos. Anunciava-se a preparação, numa parceria entre este Grémio e a SPES, de uma proposta de “Programa Nacional de Redução da Vulnerabilidade Sísmica do Edificado”. Esta proposta veio, de facto, a ser formalizada em 2001, constituindo um importante marco entre as várias ações levadas a cabo pela Engenharia Civil portuguesa, com o objetivo de despertar os decisores políticos para a questão da segurança sísmica do edificado.

Em resultado desta iniciativa, que veio reforçar os sucessivos alertas lançados, sobretudo, no âmbito dos encontros e congressos de Engenharia Sísmica promovidos pela SPES, ficou em definitivo descartada a possibilidade da liderança política invocar o desconhecimento desta questão.

Um resultado importante deste trabalho de consciencialização, ocorrido recentemente, foi a recomendação expressa feita pela Assembleia da República ao Governo, em 2010, no sentido de tomar um conjunto de medidas para reduzir o risco sísmico a que se encontra exposto muito do edificado do País. Catorze anos volvidos sobre o “número zero”, a presente edição da P&C visa constituir um alerta do Grémio (quantos mais serão necessários?) para esta inquietante questão. O artigo da direção da SPES (ver página 6) sintetiza, numa frase, aquilo que é preciso fazer: “É fundamental que as obras de reabilitação de edifícios comecem a incluir a componente do reforço estrutural de forma sistemática.”

É certo que houve, entretanto, alguns avanços, como seja o facto da estratégia para a reabilitação urbana da cidade de Lisboa manifestar expressamente a intenção de considerar a ação sísmica nas intervenções de reabilitação urbana. Mas não se tem passado ainda disso mesmo: intenções.

Há, ainda, muito trabalho a fazer e muitos obstáculos a superar, claramente enunciados no texto da direção da SPES. Uma condição de sucesso importa, no entanto, realçar: a da competência dos agentes intervenientes ao longo do processo de reabilitação. As obras de reabilitação criam uma falsa sensação de segurança e contribuem para o aumento da exposição ao risco sísmico, na medida em que incorporam valor e atraem para os imóveis reabilitados pessoas que neles passam a viver ou a trabalhar. Quando estas obras interferem com a estrutura, podem, se mal concebidas ou executadas, aumentar a vulnerabilidade dos edifícios. A reabilitação do edificado e a conservação do Património são geralmente mais complexas do que a construção nova, quer do ponto de vista metodológico, quer do tecnológico. Isto é particularmente verdade para as intervenções de natureza estrutural, nomeadamente, as de reabilitação sísmica. O sucesso destas intervenções depende da competência de múltiplos agentes, em particular dos projetistas e dos empreiteiros, exigindo empresas especializadas, dotadas, a todos os níveis, de profissionais adequadamente qualificados.

É, portanto, necessário pôr em prática um sistema de qualificação para o setor, que faça depender o acesso das empresas à conceção e execução destas obras da solidez da sua organização e da posse de recursos humanos com as competências adequadas. Sem que tal seja assegurado, os recursos a investir na reabilitação sísmica serão provavelmente gastos em intervenções de duvidosa eficácia.

Lisboa e outras zonas do País sofreram, no passado, sismos catastróficos que causaram grande sofrimento humano e provocaram perdas “em vidas e fazendas, e outrosim naqueles preciosos documentos que constituem sólidas garantias da vitalidade de um povo”, como dizia Cassiano Branco em 1932. Algures no futuro, outro grande sismo, certamente, nos espera. A redução da vulnerabilidade do edificado e do Património vai levar anos a realizar e vai custar milhares de milhões de euros. É, portanto, necessário iniciá-la quanto antes e usar com discernimento os recursos que for possível mobilizar.

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